Por que ateus deveriam ouvir música gospel. E vice-versa.

Parece até uma guerra ideológica. De um lado o povo ‘do mundo’, os condenados, os sujos. Do outro, os encabrestados, os ignorantes, os fiéis cegos. “E o que essa interminável discussão entre religiosos e ateus/agnósticos tem a ver com este blog?”, o leitor deve se perguntar. Pois bem, deixe me completar meu raciocínio: até no consumo de música essas questões se estendem. Os crentes mais fanáticos nem querem chegar perto de qualquer música que não seja gospel. Condenam as letras, os artistas e os fãs das músicas mundanas, afinal, o que não for Dele, para Ele ou sobre Ele não é digno de sua atenção. E grande parte dos ateus (mas de ateu fanático ninguém reclama, né?) não querem dar audiência para uma música que repudia por ser supostamente um ‘instrumento de dominação’. Ignoram toda qualidade técnica e talento de uma banda gospel simplesmente por causa do público. Sim, leitor, esse é um post polêmico, já ouço até alguns burburinhos por aqui. E o que farei nele é dar boas razões para que os crentes também ouçam músicas não-gospels e que os ateus/agnósticos (ou antirreligiosos, se preferir), olha só, ouçam também música gospel.

Antes de começar a ‘discussão’, gostaria de esclarecer dois tópicos para que meu argumento seja válido. Primeiro, que a música, como arte, está sujeita a várias interpretações diferentes, seja da letra ou do sentimento que ela transmite. Bom, se até o símbolo máximo de dogmatismo como a Bíblia está sujeito a diversas interpretações (é dessas interpretações que surgem as diferentes vertentes dos evangélicos, por exemplo), então não tem por que a lógica não se aplicar à música. O segundo tópico é que a letra da música não necessariamente tem que expressar o sentimento do músico que a canta. Isso não quer dizer que não seja importante, eu mesmo adoro uma letra boa na música, mas estou apenas dizendo que é um elemento que pode ser deixado de lado sem comprometer a música toda, afinal, música não é só poesia. Para quem não sabe, muitos músicos compõe a melodia primeiro e depois encaixam qualquer palavra que se ajuste. Inclusive Thom Yorke, do Radiohead, admitiu que a letra da aclamada música Fake Plastic Tree não significa nada para ele. Existem até caso de bandas como Sigur Rós que não põe letra nas melodias, de tão dispensáveis que podem ser. Isso sem falar nos casos em que os produtores do artista ou músicos fantasmas que compõe os futuros hits. Então, entendido? Consenso? Esses são fatos difíceis de contestar.

O primeiro round será direcionado aos ateus/agnósticos que, como eu disse, tem preconceito com as músicas gospels. Primeiro que eu acho a nomenclatura ‘gospel’ como se fosse um gênero musical errada, afinal, se refere ao tema das músicas, e não ao gênero. Quero dizer que existem todos os gêneros possíveis de música gospel: rock, pop, sertanejo, MPB… e até funk! Se o ouvinte procura qualidade musical, garanto que encontrará de sobra nesse nicho. E aqui vai mais uma pancada de fatos: Elvis Presley, Aretha Franklin, James Brown e outro tanto de artistas que marcaram a história da música e a cultura ocidental começaram suas carreiras em igrejas. O soul music nasceu nas igrejas. O R&B nasceu nas igrejas. Não está satisfeito? Pachebell, Bach e outros grandes compositores eruditos também compunham para igrejas. Conclusão: igreja é um ambiente de criatividade musical. Por que? Não sei ao certo, mas acredito que se você tem muita fé em algo, irá se dedicar completamente nisso. E dedicação com talento gera qualidade.

Ora, amigo ateu, se você gosta de um rock pesado, por exemplo, porque ignorar o mercado gospel de rock pesado? Juninho Afram, da banda Oficina G3 é um dos melhores e mais respeitados guitarristas do país. Vai desqualificá-lo porque a letra que ele produz não vai de encontro as suas expectativas? Por que não interpretar a música de forma diferente, afinal, há mais nela do que mensagem, não é? Eu realmente duvido que a maioria dos roqueiros preste atenção em todas as letras de todas as músicas que ouvem. Em muitos casos ouvem letras que contradizem descaradamente qualquer moralidade, mas não quer dizer que concordem com isso ou que sejam hipócritas. Se eles ouvem música pela harmonia e pela emoção que ela traz, porque pegar tanto no pé da mensagem dos rock gospels, quando pode simplesmente reinterpreta-la ou ignorá-la? Se for um ateu/agnóstico tão mente-aberta e questionador como diz, com certeza isso o fará pensar em ampliar seus horizontes musicais. Porém, se for mais um ateu fanático, que faz da sua descrença o próprio dogma, não tem nem o que discutir.

Elvis Presley começou a carreira como cantor gospel e interpretou clássicos como Amazing Grace e Love Me Tender. Aretha Franklin foi outro nome de peso na música que começou carreira como gospel.

Segundo round, entram os religioso na arena. Sobre os crentes é possível dividir em dois para esclarecer a discussão: os que acreditam apenas na dualidade, no preto e branco, no bem ou no mal; e os que acham que também existe o neutro, o acaso, o livre arbítrio. O segundo grupo, que é o que eu mais convivo, tem facilidade para filtrar músicas ‘mundanas’ e escutá-las sem problemas. Sim, podem até ser exigentes quanto à mensagem da música ou atitudes dos artistas, mas isso é flexível. Esse grupo eu diria que já usa do recurso de ‘interpretar música’ e ‘letras alheias ao caráter’ que citei. O que me incomoda mesmo, na verdade, é o primeiro grupo. Me incomoda não porque eles não ouvem música que não seja gospel. Isso é uma decisão pessoal, e condiz com a filosofia de vida deles, que é a dualidade bem e mal, que se não for um é outro. O que me incomoda é que abrem mão da música mas consomem outras artes sem seguir o mesmo princípio. Assistem vários filmes ‘mundanos’, leem livros que não são religiosos, jogam jogos de computador e interagem com vários outros conteúdos que não são voltados para religião. Ora, se não é um, é outro, não era assim? Por que a ideia só vale para música? Com que autoridade você diz o que é ou não é ‘mundano’? Assim como no caso do ateu fanático, existe contradição de princípios.

Enfim, essas são apenas considerações que envolve preconceito, música e religião, ou seja, um tanto polêmico. Mas vejam bem, não estou impondo verdade a ninguém, estou apenas seguindo raciocínios, que podem muito bem serem debatidos. E também admito que generalizei muito, mas é impossível em discussões assim não generalizar. Também conheço ateus que gostam de Hillsong (banda de rock gospel americana) e crentes que amam heavy metal.

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