Archive | abril 2012

Uma breve divagação sobre a predisposição cultural na música

Já começo pedindo perdão pelo título rebuscado, mas foi um grito quase necessário. O que eu quero dizer com ele é basicamente “por que alguns lugares são tão bons em fazer música de determinado estilo”, ou até mesmo “por que o Reino Unido faz tantas bandas de rock boas e o Brasil tantas de Bossa Nova igualmente boas?”. Como você pode ver, um título direto como esses não abriria espaço para uma introdução tão peculiar como esta. Bom, fazendo jus ao título escolhido, devo parar de enrolação ou logo não será uma ‘breve divagação’.

Os amantes de rock sabem bem: as melhores e mais inovadoras bandas de rock são daquele pedaço de terra cercado de água salgada. The Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, The Who, Queen, Radiohead, Coldplay… e ainda mais uma penca, todos britânicos. Sim, há roqueiros importantes de outros lugares, mas nunca pararam para imaginar por que tantos e por que justo do Reino Unido? Ou ainda os bossia-novistas. Sim, é um gênero inventado no Brasil, mas consumido e abusado pelos europeus, então porque eles também não produzem música do gênero com a mesma qualidade ou impacto que a nossa? Como e por que ser de um pedaço de terra influencia tanto na produção musical? Bom, aí que entra a discussão.

No século passado os estudiosos usavam o termo ‘determinismo cultural’ para dizer que uma pessoa é condicionada a ser o que ela é por causa da cultura onde ela está inserida? Como assim? A idéia é que, grosseiramente falando, o Japão é um país desenvolvido porque a sociedade e a cultura onde os japoneses nasceram os incentivaram a serem trabalhadores, unidos, persistentes, e tudo o mais que seja necessário para que um povo se desenvolva. Quer dizer que os valores dessa sociedade moldaram o psicológico e as atitudes do povo japonês, facilmente identificável nos estereótipos. Por exemplo, a idéia de que todo japonês é estudioso. Isso quer dizer que só pode ser estudioso quem vive e convive no Japão? Claro que não. Mas o japonês (ou qualquer um que vive e convive nessa sociedade) será muito mais propício a ser estudioso. Vamos levar a analogia para a música?


John Lennon e Mick Jagger (o segundo inspirado no primeiro), dois músicos que marcaram o cenário do rock.

Bom, assim como houve um primeiro passo (por acaso ou por mérito) para que os japoneses adotassem uma postura dedicada e trabalhadora como conhecemos hoje, houve também um primeiro passo para que os britânicos conquistassem o mundo da música. O fato é que ambas as proezas serviu de inspiração e foi se multiplicando entre o povo, perdurando até hoje. Imagine no caso do rock, então, que os britânicos começaram a ter um sentimento musical nacionalista e uma visão empreendedora quando os Beatles romperam as barreiras e se tornaram mundialmente conhecidos e invadiram o todo poderoso mercado americano. Os jovens que começavam a aprender guitarra queriam ser os Beatles. As mentes geniais produtoras de músicas e poesias também queriam ser os Beatles. O resultado inevitável é que a popularização do rock tornou o ambiente propício, tanto artisticamente quanto economicamente (com a ascensão do mercado fonográfico britânico), para o surgimento de novas bandas de rock. Entre elas, Led Zeppelin e Rolling Stones. Veja bem, agora as novas gerações tem ainda mais bandas de rock para se inspirarem e um mercado fonográfico ainda mais lucrativo e consistente. Resultado? Mais boas bandas de rock pulando do Reino Unido. Assim como os japoneses foram crescendo economicamente e difundindo seus valores nacionalistas e trabalhadores, os britânicos foram crescendo musicalmente e difundindo seus valores roqueiros e inovadores. Em ambos os casos foi criado uma cultura, e quem estivesse nela estaria condicionado a difundí-la.

Então o mesmo raciocínio vale para o caso da Bossa Nova no Brasil: houve um primeiro passo para popularizá-lo internacionalmente (com os grandes João Gilberto e Tom Jobim) e, portanto, um crescimento do mercado fonográfico nacional e a condição de inspiração para os jovens apreciadores. Desses jovens apreciadores saíram novos grandes artistas, que repete o mesmo processo e a bola de neve vai crescendo. Mesmo no mundo globalizado de hoje, onde um tailandês pode ter o mesmo acesso ao rock britânico que o próprio britânico, ele não está inserido na mesma cultura e nem no mesmo contexto para produzir o mesmo material. E mesmo que produza, dificilmente terá o mesmo público e o mesmo apoio empresarial. Chega a ser até engraçado pensar em como as coisas acontecem e como poderiam ser diferentes. Poderíamos muito bem, em uma realidade paralela, ser fã de rock russo, imaginem só. E aqui concluo a minha divagação que de breve não foi nada.


Hum… suspeito que não pegaria.

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