Archive | fevereiro 2012

Quiet Is The New Loud – Por Trás do Álbum

NOTA DO ÁLBUM: 

MÚSICA FAVORITA DO ÁLBUM: I Don’t Know What I Can Save You From

Em algum post anterior eu comentei sobre o legado da música no terceiro milênio, como a forma de distribuição e a perda da força da iconização. Mas o que mais me agrada é o vasto leque de diversas bandas de diferentes estilos que podemos ter contato. Leque tão vasto, aliás, que é preciso dar nomes igualmente amplos para agrupar tantos estilos, como a música indie ou rock alternativo, que muitas vezes não tem elementos iguais ou intersecções além de músicas independentes para o público underground. E entre as várias bandas que venho conhecendo, uma realmente despertou em mim a necessidade de escrever um post. Chamam-se Kings of Convenience, uma dupla folk de jovens violonistas noruegueses com vozes espetacularmente doces (e é aí que está a graça do cenário indie: em que outra época ou lugar eu seria capaz de encontrar e virar fã de um duo norueguês sem perspectiva comercial?).

A primeira música deles que ouvi foi I’d Rather Dance With You no blog Song Sweet Song, e era um pop bem leve e envolvente, o que descobri mais tarde ser uma importante característica da banda: a versatilidade. Não que eles tenham em seu repertório músicas diferentes e estejam sempre experimentando novos estilos, mas que quando arriscam um estilo diferente são capazes de manter a excelência. É o caso de quem ouve a discografia dos caras. O primeiro álbum, Quiet Is The New Loud (2001), é um álbum genuinamente folk (ainda que com algum vestígio de, olha só, bossa nova!), com influências marcantes de Simon & Garfunkel, grandes ícones do folk. O segundo, Riot On An Empty Street (2004) é um mexidão de folk, pop e bossa nova. É um ótimo álbum e marca uma transição da época mais folk do grupo para uma batida mais bossa nova como é visto no terceiro e mais recente álbum, Declaration of Dependence (2009). A questão é que a banda (ou duo) tem uma versatilidade acrescentadora, ou seja, ela não passa de folk para bossa nova, mas a medida que lança material novo é possível perceber que são elementos que são trabalhados juntos.

Apesar de serem dignos de um post de toda a discografia, me limitei a escrever somente sobre o primeiro álbum, que acredito ser o mais importante tanto pelo impacto quanto pela introdução da banda no cenário indie. O mérito, porém, não é somente de Erlend Øye e Eirik Bøe (vocalistas/violonistas), pois a obra teve Ken Nelson como produtor, um dos responsáveis pela excelência e fama do Coldplay ao produzir os três primeiros álbuns do quarteto inglês. No clima de revival característico dos anos 00, a banda ajudou a dar um novo fôlego ao folk (como eu ja citei ao mencionar a semelhança com S&G), e por isso a certa importância do álbum, que logo conquistou muitos fãs. O álbum chegou inclusive a batizar o nome de uma banda. Como característica do folk, as músicas têm mais foco para a melodia e letra das músicas, e a melodia, pelo menos, eu garanto que fez do álbum e da banda o que ela é hoje. São melodias marcantes sob duas vozes abençoadas, com refrões tão climáticos quanto deve ser (destaque para Singing Softly to MeWinning a Battle, Losing the War). E o mesmo vale para as melodias de solos de violão, que já desse primeiro álbum tem um quê de bossa nova, bem exemplificado pela introdução de I Don’t Know What I Can Save You From.

Apesar da homogeneidade perceptível no estilo musical do álbum, o mesmo não se pode dizer sobre a parte lírica. Todas as músicas são cantadas em inglês, talvez contradizendo o próprio Eirik ao afirmar que fazem música pela música, sem se preocupar com a parte comercial (mas todos sabemos que o primeiro ingrediente para sucesso comercial internacional é a música ser em inglês… além disso, adoraria ouvir eles cantarem em norueguês, confesso). Os temas das músicas variam, podendo ser tanto introspectivos (como Winning a Battle, Losing the War), sobre amor (vide The Girl From Back Then e Singing Softly to Me) ou sobre coisas completamente abstratas e/ou externas (Parallel Lines Little Kids). É interessante notar que mesmo para estrangeiros, eles têm um vocabulário muito amplo no inglês, presentes em quase todas as músicas deste álbum, com raras exceções (The Girl From Back Then, por exemplo, só tem uma fraca estrofe), superando liricamente muitos artistas que têm o inglês como língua mãe. FailureWinning a Battle, Losing the War se destacam na poesia e vale a pena ser conferida por aqueles que dão grande valor à mensagem na música.

Quiet Is The New Loud é uma álbum para ser ouvido inteiro, em um dia que se busca paz de espírito e calmaria. Voz suave, arranjo bonito no violão e refrões impecáveis são elogios comuns. E, se você gostou da obra, não deixe de ouvir a discografia inteira, é importante para conhecer a banda. No mínimo, ‘é bom para ouvir no carro’, como disse um amigo meu.

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Red Hot Chili Peppers lança novo clipe interativo e surpreendente

 

A banda americana lançou o terceiro videoclipe do álbum I’m With You, que estreou o novo guitarrista Josh Klinghoffer. A versão oficial e “comercial” do clipe mostra cada integrante em um quarto diferente, com situações comumentes bizarras que a banda gosta de propor (Andy rodando segurando um cachorro e Flea rolando no chão serão visões normais, comparada com a falta de sentido do clipe), já está na web desde o dia 26 de janeiro. Mas a grande surpresa foi o vídeo interativo que a banda disponibilizou recentemente em seu site. Nele, você pode interagir com cada quarto diferente, com direito a zoom e links escondidos do making of do clipe. E a escolha da música Look Around foi bem apropriada pro vídeo, tanto pela significância do clipe e da brincadeira quanto pela sonoridade: qualquer música que se destaca ficaria tímida com a adrenalina que o divertimento proporciona. Nada melhor para entender que assistir/jogar:
http://download.wbr.com/rhcp/ivideo/rhcp-widget.swf

Anos 2000… o que deixaste para mim?

Estamos no segundo mês do segundo ano da segunda década do terceiro milênio… UFA! Me impressiona como o tempo passa rápido, e vou abordar nessa postagem o legado, os ícones e as (r)evoluções musicais que nos foi deixado da década passada (sim, e como passou rápido, repito). E é difícil falar tão friamente disso quando começo o texto com uma frase que invoca todos os tipos de questões filosóficas e existenciais, sobre a inconsistência que é o tempo e a minha pequenez na História. E tempo tem tudo a ver com a questão: uma das formas de classificação do tempo é em décadas, tentando homogeneizar uma cultura de época, uma geração inteira, e é daí que saem os ícones. Como falar dos anos 60 sem imaginar hippies viajando em grupo em uma kombi escutando Jimmy Hendrix? Ou dos anos 80 sem lembrar dos cabelos imensos desgrenhados e calças apertadas ao som de Michael Jackson? O fato é que as décadas mais recentes foram estereotipadas porque PODEM ser estereotipadas.

Explico melhor: é preciso lembrar que nos anos 50 você poderia escutar músicas pelo rádio ou, se tivesse sorte na vida, por uma televisão extremamente limitada (é claro que você poderia comprar vinis de bandas mais ou menos conhecidas, mas muitas dessas nem sobreviveram ao tempo). Dessa forma, você estaria sujeito a uma decisão externa de quais seriam suas opções musicais, o que o dono da rádio gostasse seria repassado para que milhares de ouvintes gostassem também. O que quero deixar claro é que havia (e ainda há) uma modelagem e uma construção toda da mídia para formar os artistas que se sobressaíram, e destes, os que sobrevivessem ao longo dos anos e representassem a geração daquela década (principalmente a juventude) seriam ícones. É claro que ícone não é um título dado com cerimônia a algum artista, mas um senso comum. Assim, é quase instantâneo quando o mundo associa o jazzista Nat King Cole como a grande estrela dos anos 40 mesmo quando Ary Barroso fazia uma revolução na música brasiliera na mesma época. A diferença é que Cole era muito mais conhecido, seus shows passavam nas televisões do mundo inteiro. Às vezes endeusamos os artistas pelo simples fato de serem ícones (o que já não é um simples fato) como Elvis e Chuck Berry. E quando estereotipamos essa época, ou seja, pegamos a juventude geral, as atitudes gerais, as notícias e os artistas que mais passavam na mídia, e esprememos até que sobre apenas o vestígio do que a década representou em certa ótica (no caso, a musical), achamos aceitável que o que imaginamos dos anos 50, por exemplo, é um monte de meninas gritando aos pés de Elvis enquanto este dança e canta com seu violão. E isso, no final das contas, é importantíssimo para a cultura popular, como uma forma simples e didática de entender a evolução da música.

Agora chegou o ponto que eu realmente queria abordar: qual a imagem que vem na sua cabeça quando falamos dos anos 00? Se você acha tão difícil como eu imaginar algo consistente, não te culpo. Talvez realmente não haja um ícone tão expressivo como havia antigamente. Por que? Porque a mídia mais tradicional (como jornal, rádio e televisão) já não tem a mesma força de antes. Ou melhor, você, internauta, tem muito mais força do que tinha antes: você pode fazer sua própria programação, conhecer e ter quaisquer música que lhe apetecer, conhecer bandas de todos os cantos do mundo, comentar e participar sobre os principais assuntos e até criar sua própria música e publicar para estar eternamente impregnada e disponível para os milhões de novos usuários da rede (esse é o X da questão, que tratarei mais adiante). Enfim, há um leque inadministrável de opções musicais, e como extrair uma generalização de algo tão heterogêneo? Até o critério de vendas de disco (antes tão valorizado) hoje é  duvidoso para medir a popularidade e conceito do artista. É claro que ainda há artistas muito famosos como sempre haverá. The Black Eyed Peas, Eminem (essa foi a década dos rappers, para muitos) e Britney Spears foram artistas que se destacaram no cenário geral. No rock, The Strokes, Coldplay e Foo Fighters (do ex-baterista do noventista Nirvana) foram promessas que se cumpriram, e ainda vieram surpresas agradáveis como The Killers e várias outras. Era de se esperar que, já que nenhum artista se sobressaiu como o representante da geração, algum artista tivesse de alguma forma revolucionado a música. Entre tantos músicos da época, Chuck Berry revolucionou ao dar uma cara ao rock (conhecido hoje como ‘rock clássico’). Entre tantos de sua época, os Beatles revolucionaram ao orquestrarem suas músicas e as tornarem extremamente conhecidas até os dias de hoje. Entre tantos de sua época, Michael Jackson revolucionou ao abrir portas para uma indústria inteira de videoclipes e mega produções (vide Thriller). E nos anos 2000? Quem revolucionou o que e como?

A resposta para essa pergunta não tem ‘quem’. Nenhum artistas revolucionou a música de forma alguma nessa década, e mesmo que tivesse, muito provavelmente seria apenas um sopro em relação a verdadeira revolução. A Revolução (e faço questão de colocar o maiúsculo) foi na distribuição da música, algo externo que simplesmente foi acontecendo e não temos a quem dar crédito, e algo que os artistas tiveram que engolir amargamente. Como já citei antes, hoje as pessoas podem baixar gratuitamente (ainda que muitas vezes ilegalmente) as músicas que quiserem pela internet, e estão deixando de comprar CDs para isso. Resultado? A indústria fonográfica tem chorado e se debatido, mas ao mesmo tempo arrumando outras estratégias para rodear a falência, como a venda de músicas separadamente e bem mais em conta do que comprar o CD inteiro (o que faz o iTunes, por exemplo). Também não duvido que os artistas tenham feito mais shows do que nunca. E shows dignos do nome: quanto mais ornamental e exagerado, mais aprovação do público, reconhecimento e dinheiro no bolso (para quem já viu um show do Black Eyed Peas, é bem desse nível que eu me refiro). Tento imaginar como os Beatles sobreviveriam nesse mundo, já que passaram anos sem shows. O outro lado da moeda são de bandas mais alternativas que, mesmo com reconhecimento de especialistas e com um público fiel, tentam se aproveitar da nova forma de distribuição. A banda inglesa Radiohead, por exemplo, disponibilizou seu álbum In Rainbows (2007) em seu site para que os fãs pagassem o tanto que quisessem pela música, sem limite algum. A queridinha de Brasília Móveis Coloniais de Acaju também abraçou o estilo e dá a possibilidade de fazer download grátis do seu álbum Complete (2009) no site da Trama.

Mesmo com menos poder da mídia tradicional, estar na capa de revistas como a Rolling Stones pode fazer muita diferença na carreira do artista.

Outro aspecto da Revolução dos anos 00: fazer um álbum perdeu muito seu conceito. Quem ouve um cd do Pink Floyd vê as letras e a história por trás delas. O que quero dizer é que eram muito mais comuns álbuns conceituais (onde a obra tem um sentido, uma história contada pelas músicas). Qual seria o sentido de se preocupar tanto com a coesão do álbum quando as músicas serão vendidas separadamente (observe que, neste caso, me refiro especificamente às bandas comerciais)? Apesar de todo esse questionamento acerca da falta de uma imagem musical dessa década passada, talvez apenas ainda não deu tempo de processar direito toda essa mudança. A mudança de geração não é uma linha que ultrapassamos e inspiramos fundo para dizermos “Pronto, agora mudou”. Mas mesmo assim ainda é fato todas essas mudanças mencionadas no post. E a principal mudança, leitor, é que nós somos a causa de Revolução na música dos anos 00, fomos nós quem a incentivamos e alimentamos.

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