Archive | outubro 2011

A banda mais bonita do Brasil

Finalmente chegou o tão esperado momento para escrever sobre a banda que conquistou o Brasil em apenas alguns minutos. Esperei passar um certo tempo para esfriar a bola d’A Banda Mais Bonita da Cidade para que esse post não seja apenas mais um na onda de notícias sobre a banda curitibana. A razão de tamanha visibilidade foi o efeito viral do clipe de Oração, que teve mais de 350 mil acessos em apenas dois dias (18 a 20 de maio) e cativou os ouvintes brasileiros por seu clima de descontração e alegria. “Fofura”, simplificam alguns. É interessante notar que essa foi uma das músicas mais recentes da banda postada em seu canal, sendo que alguns datam de dois anos atrás. Apesar desse salto na mídia, a banda, composta por apenas cinco integrantes (não se deixe enganar pelo clipe de Oração!), diz ser genuinamente independente e está trabalhando por conta própria no seu CD, sem nenhum contrato com qualquer gravadora. É claro que essa independência é relativa: a banda tem parceria com o site Trama, empresa que trabalha com o conceito de ‘download remunerado’ e autoriza o download gratuito para os fãs.

A vocalista Uyara à esquerda e os demais integrantes da banda que encantou o Brasil.

Em uma entrevista ao site do Estadão, a banda afirma que também tocavam em outras bandas e que não havia uma dedicação exclusiva, apesar da banda já existir a dois anos. “Nunca fomos uma banda de tocar todo final de semana”, afirma Rodrigo Lemos, guitarrista da banda. Obviamente essa postura mudou com as exposição na mídia, mas essa situação ilustra uma característica importante para a banda: a química. Se as músicas já são bem arranjadas e harmonizadas agora, imagine daqui alguns anos somados ao foco que os integrantes estão dando à banda. E que Deus permita que dure isso tudo.

     Quanto às composições, talvez seja, ao mesmo tempo, o ponto mais forte e mais fraco da banda. Mais forte porque surpreende como essas belas (e muitas vezes estranhas) melodias ficaram desmerecidamente tanto tempo sem o público que merece. O tom sombrio de A Balada da Bailarina Torta, a melancolia de Se Eu Corro ou a alegria minimalista de Oração mostram uma versatilidade nas músicas. Também vale citar Canção Para Não Voltar e A Balada Em Contramão como outras músicas que valem a pena ouvir. E qual o ponto negativo nisso? Nenhuma dessas músicas foram compostas pela banda. Ou melhor, quase nenhuma, pois o guitarrista Rodrigo Lemos compõe algumas músicas para sua banda paralela, Poléxia, e a recicla sob o som igualmente alternativo d’A Banda Mais Bonita da Cidade (caso das músicas Aos Garotos de Aluguel  e A Balada Em Contramão). O resto das canções são contribuições de amigos, como o artista brasiliense Leo Fressato, que contribuiu com A Balada da Bailarina Torta, Oração e Canção Para Não Voltar. Outros nomes como Troy Rossilho e Luiz Leprevost também aparecem com frequência nos créditos. Será, então, que a carreira da banda estará a mercê de composições alheias? E se decidirem produzir suas próprias, será que a qualidade permanece? São perguntas que só o tempo pode responder.

Enfim, foi um momento oportuno para essa banda aparecer,pois muitos já não aguentava mais ouvir falar de Luan Santana e Cia. sem ver ao menos vestígios de boas novas bandas brasileiras surgirem. Vale lembrar que ainda há bandas brasileiras com qualidade para sucesso nacional que não quererem perder sua genuinidade para fazer parte da música comercial, e a Banda Mais Bonita da Cidade veio para comprovar isso. Que Uyara Torrente, Vinícius Nisi, Rodrigo Lemos, Diego Placa e Luís Bourscheidt continuem com o bom trabalho!

Trechos de várias músicas da banda.

Rock in Rio – por trás das transmissões

Chris Martin no show do Coldplay, considerados por muitos como o melhor do Rock in Rio 2011

     Então é isso. Após 7 dias de shows distribuídos em duas semanas, o Rock in Rio acabou com uma fina camada que separa a satisfação do “poderia ter sido melhor”. Poderia ter sido melhor por causa das falhas na equalização do som  principalmente no Palco Sunset (que estragou a apresentação dos Móveis Coloniais de Acaju, por exemplo), da distribuição dos artistas na programação (imagina quão melhor seria Stevie Wonder e Elton John no mesmo dia ou Snow Patrl abrindo para Coldplay?) ou dos próprios artistas (vide os shows vergonhosos de Claudia Leitte e Ke$ha). Mas, a despeito das falhas, não dá para negar que essa quarta edição do Rock in Rio no Brasil foi um sucesso. Que o digam as 100 mil pessoas que compunham a platéia, girando as camisas no show exemplar de Skank ou cantando o coro melancolicamente maravilhoso de Fix You do Coldplay. Os hashtags referentes aos artistas tomando conta do twitter e outros memes da net, como o ‘beijo’ (e coloque aspas nesse ‘beijo’!) de Katy Perry no fã de Sorocaba, são bons indicadores da repercussão do evento.

     Mas existe um ponto mais profundo que merece ser criticado. Talvez o ponto que desmascare a política podre que está em grande parte das negociações no Brasil. Só haviam três maneiras de assistir os shows aqui no Brasil: pela Rede Globo, de madrugada e com os shows editados; pelo Multishow, filiada da Rede Globo, que transmitiu ao vivo; ou pelo site da Rede Globo. Ou seja, em plena democracia, a Rede Globo tem o monopólio desse evento (e de vários outros), e ainda o transmite porcamente. É claro que, por não atingir o público alvo, o vulgo ‘canal 10’ não trocaria seu milionário horário nobre pelas apresentações de rock praticamente desconhecidas pela massa. Mas restringir o público para o canal pago não ajuda na satisfação do cliente. Sim, você poderia assistir online, mas com uma qualidade sofrível, muito delay e travando na mesma intensidade. A transmissão mundial que teve pelo Youtube foi bloqueada no Brasil para que a Globo tivesse exclusividade. Por que a MTV, por exemplo, que está a anos no ramo de musica, não poderia transmitir os shows também? Simples: a exclusividade é decidida, basicamente, por quem paga mais. Não poderia ser mais político que isso. Para quem não sabe, os serviços radiofônicos e televisivos são públicos, e o Estado que deve concedê-los aos particulares (ah, então é por isso que fica fácil para tantos políticos terem filiais de alguma emissora). O problema, então, é na lei, pois política de exclusividade sempre se mostrou um problema. Como consumidor, sei que o monopólio limita a qualidade do nosso produto. Como estudante de comunicação, sei que o monopólio distorce muitas ‘verdades’.

     Não que eu esteja julgando imprudente o modo que a Globo utilizou sua exclusividade, pois qualquer empresa deve explorar ao máximo suas oportunidades. Mas imprudente é a própria exclusividade! O mesmo ocorre em jogos de futebol, copas e olimpíadas. Só agora, após tantos ‘galvões buenos’ é que a Record transmitirá uma Olimpíada, por exemplo. Sim, a Record, Band e outras emissoras também transmitiram ineditamente o Pan de 2007, mas isso é considerado extraordinário. Extraordinário deveria ser uma só empresa televisiva transmitir tantas vezes seguidas o mesmo evento. Desabafo à parte, espero que, para a integridade do nosso comércio midiático e pelo respeito ao consumidor, as próximas edições no Brasil (2013 e  2015) tenham uma transmissão mais livre. É triste o consumidor depender tanto de política quando o objetivo é apenas o entretenimento.

Roberto Medina (direita), idealizador do Rock in Rio, confirma a edição de 2013 no Rio.